Como empresas de tesouraria estão moldando a narrativa do Ethereum

Mercado Financeiro

Durante anos, o Ethereum enfrentou um obstáculo considerável na sua adoção por investidores tradicionais: a ausência de um modelo de avaliação clara. Diferente do Bitcoin, que conquistou espaço como uma reserva de valor, o ETH sempre gerou dúvidas quanto à sua utilidade dentro de carteiras institucionais. No entanto, isso está mudando.

De acordo com Matt Hougan, diretor de investimentos da gestora Bitwise, a recente estruturação de tesourarias baseadas em Ether — empresas que acumulam o ativo e o utilizam para gerar receita via staking — está resolvendo um dos principais problemas narrativos do Ethereum. Ao empacotar ETH como um ativo capaz de gerar lucros dentro de uma estrutura empresarial, o mercado começa a enxergar o token de maneira muito mais próxima do que Wall Street valoriza: retorno sobre o capital investido.

A virada narrativa: de ativo intangível a gerador de caixa

A premissa básica é simples, mas poderosa. Quando uma empresa detém bilhões em ETH e aplica esse capital em staking (o mecanismo de validação de transações do Ethereum pós-merge), ela passa a gerar uma receita contínua. Isso transforma um ativo antes “abstrato” em uma linha concreta de fluxo de caixa.

Para Hougan, essa “embalagem corporativa” é o que faltava para o Ethereum ser compreendido dentro das estruturas mentais dos investidores institucionais. Ao ver uma empresa reportando lucros vindos diretamente da operação com ETH, os analistas tradicionais passam a ter um modelo familiar com o qual trabalhar: múltiplos de lucro, yield, valor de mercado ajustado por receitas.

Esse tipo de compreensão é o que possibilitou o Bitcoin ganhar tração quando empresas como a MicroStrategy, de Michael Saylor, começaram a acumulá-lo como parte de sua estratégia de tesouraria. Agora, o Ethereum trilha um caminho similar, com nuances próprias.

Ethereum institucional: o que mudou em 10 anos

A narrativa do Ethereum como “o computador global descentralizado” seduz desenvolvedores, mas não convence fundos multimercado. No entanto, à medida que o protocolo amadurece, fica cada vez mais difícil ignorar seus atributos econômicos: geração de receita via taxas de rede, modelo deflacionário (com queima de ETH) e, agora, o staking como forma de remuneração ativa.

Nos últimos dois anos, vemos um movimento crescente de empresas se formando especificamente para deter ETH e gerar renda com isso. Em vez de tentar explicar os méritos técnicos do ativo, essas estruturas o apresentam como parte de um balanço corporativo.

É o nascimento de uma nova classe de “empresas de tesouraria cripto”, moldadas à imagem do que já vimos com o Bitcoin, mas com as especificidades do Ethereum: geração de rendimento e utilidade operacional dentro de um ecossistema mais amplo de finanças descentralizadas.

Os riscos dessa nova abordagem

Claro que essa estrutura não vem sem riscos. O principal, segundo Hougan, é o excesso de alavancagem. Empresas que levantam capital via emissão de dívida para comprar ETH e aplicá-lo em staking enfrentam uma simetria de risco considerável: os passivos são denominados em moedas fiduciárias, enquanto os ativos estão em cripto.

Em momentos de queda acentuada no mercado, isso pode pressionar seriamente as margens. No entanto, Hougan acredita que o risco de uma liquidação em massa — nos moldes dos colapsos de 2022 — é hoje muito menor, dado que a maioria dessas empresas estrutura sua dívida com vencimentos espaçados.

Outro ponto importante é o horizonte de investimento. Adotar o ETH como ativo de tesouraria requer paciência e visão de longo prazo. Quem entra com mentalidade de curto prazo tende a ser mais vulnerável à volatilidade do mercado — algo que, no mundo cripto, é quase garantido.

O futuro do Ether como ativo corporativo

O movimento das empresas de tesouraria marca uma nova fase na institucionalização do Ethereum. Não se trata mais apenas de fundos de investimento ou ETFs tentando capturar valorização de preço, mas de empresas que operam como verdadeiras holdings de criptoativos.

Elas não apenas compram e guardam, mas gerenciam ativamente esses ativos em busca de retorno — com foco em geração de caixa, proteção contra inflação e exposição controlada à volatilidade.

Essa abordagem pode ajudar a consolidar o Ethereum como um ativo legítimo de tesouraria, assim como o Bitcoin já é para muitas empresas. Mais importante: ajuda a responder à pergunta que pairava sobre o ETH desde seu lançamento — por que ele tem valor?

Considerações finais

A transformação do Ethereum em um ativo compreensível para investidores tradicionais não depende apenas de tecnologia, mas de narrativa. E, neste momento, são as empresas de tesouraria e participações que estão escrevendo esse novo capítulo.

Ao aplicar modelos corporativos clássicos sobre um ativo digital, elas não apenas aumentam sua adoção, como também moldam sua percepção de mercado. Se o movimento vai se consolidar ou não, ainda é cedo para dizer. Mas o simples fato de existir já mostra o quão longe o Ethereum chegou desde sua origem como uma plataforma experimental.